AÇÕES CIBERNÉTICAS NA OPERAÇÃO DOS EUA NA VENEZUELA (OPERATION SOUTHERN SPEAR)
A aplicação contemporânea do poder cibernético como multiplicador estratégico em campanhas multidomínio.


Essa análise busca oferecer uma base teórica para a aplicação do poder cibernético em operações de neutralização ou captura de lideranças estratégicas dentro do escopo das operações multidomínio. Emprega-se, a título de análise, o cenário hipotético da OPERATION SOUTHERN SPEAR, criado como ferramenta para o estudo e a reflexão estratégica. Para evitar qualquer confusão factual, o texto abaixo está explicitamente enquadrado como um estudo estratégico, ou seja, como caso de estudo.
O ciberespaço é um domínio de operações distinto, que se caracteriza pela interdependência entre o espaço terrestre, marítimo, aéreo, espacial e da informação; rápida velocidade de ação; impossibilidade de atribuição imediata; e pela resultante em sistemas políticos, militares e sociais.
Nas operações atuais, o espaço cibernético vai além do apoio e se torna crucial para obter a superioridade na tomada de decisões. Desta forma, a liderança estratégica em regimes que são fortemente personalistas costumam se tornar alvo de ações cibernéticas por concentrarem o poder decisório; a "legitimidade política"; e a coesão do dispositivo coercitivo estatal.
Desta forma, ela se torna um Centro de Gravidade Estratégico cuja neutralização pode causar consequências desproporcionais em todo o sistema.
No cenário proposto para a OPERATION SOUTHERN SPEAR, o Estado alvo possui dependência significativa de infraestruturas digitais; falta de resiliência cibernética nas instituições; concentração total do controle político-militar; legitimidade interna fraca; e controle informacional dependente de aparatos estatais frágeis. Tal conjuntura promove um cenário propício para a utilização intensiva do poder cibernético.
Em contexto doutrinário, o poder cibernético deve ser utilizado para:
1-Isolar lideres estratégicos;
2-Desestabilizar o sistema de comando e controle (C2);
3-Desmantelar a estrutura de governança do Estado;
4-Minimizar a necessidade de usar força cinética; e
5-Estabelecer uma superioridade decisória para as forças de manobra.
Cabe ressaltar que a preparação do ambiente cibernético ocorre antes da ação ostensiva e abrange:
1- O reconhecimento de redes e sistemas por um longo período;
2- A detecção de falhas técnicas e humanas;
3- A criação de acessos que permanecem ativos; e
4- A identificação de processos decisórios digitais.
Neste ponto de vista, as ações são contínuas e não dependem da declaração formal de hostilidades. Na fase final, a ofensiva têm o objetivo de:
1-Suspender comunicações essenciais;
2-Adicionar incertezas e atrasos na tomada de decisões;
3-Prejudicar a integridade dos dados operacionais; e
4-Isolar camadas superiores de seus subordinados.
A meta não é causar uma destruição completa, mas sim uma interrupção funcional temporária do sistema.
Cabe ressaltar que o poder cibernético possibilita a realização das operações de informação, permitindo:
1-A gestão do fluxo de informações;
2-A eliminação da propaganda oficial;
3-A criação de sensações de colapso e inevitabilidade; e
4-A exploração do domínio cognitivo como um espaço de decisão crucial.
A integração ciber-informacional diminui consideravelmente a resistência organizada.
Na esfera de suporte direto às forças de manobra, o poder cibernético permite:
1-A localização precisa de alvos estratégicos;
2-A desativação de redes de monitoramento e controle;
3-A diminuição do risco operacional; e
4-A cooperação em tempo real com forças especiais.
O uso apropriado do poder cibernético em ações de captura de liderança estratégica resulta em:
1-O domínio informacional;
2-A ruptura da coesão decisória adversária;
3-A minimização da letalidade do conflito;
4-A redução de custos políticos e estratégicos; e
5-A aceleração da obtenção do resultado final.
Em termos doutrinários, devem ser levados em conta:
1-Os perigos de uma escalada não planejada;
2-As consequências para infraestruturas civis essenciais;
3-As questões relacionadas à atribuição e à legitimidade internacional; e a
4-A obrigatoriedade de aderir ao Direito Internacional.
O planejamento cibernético deve incluir, desde o começo, uma avaliação legal.
Deve-se supor que na operação dos EUA na Venezuela (Operation Southern Spear/Absolute Resolve), as operações cibernéticas focaram principalmente em neutralizar defesas aéreas e radares russos, combinadas com ações iniciais contra infraestruturas críticas. As ações cibernéticas massivas apagaram os sistemas antiaéreos de fabricação russa (como S-300), permitindo inserção de helicópteros com integrantes da Delta Force sem detecção. Soma-se a esse efeito os ataques cibernéticos aos navios e instalações de narcotráfico costeiras, desabilitando rastreamento e comunicações para facilitar um bloqueio total, sem evidências de invasões profundas em redes governamentais.
O poder cibernético é um componente fundamental da guerra moderna. Neste contexto, a neutralização de um centro de gravidade humano, fundamenta-se no controle da informação. Desta forma, para que a operação seja bem-sucedida, é essencial que haja integração entre os domínios.
Deve-se considerar que Estados resilientes no ciberespaço minimizam significativamente sua exposição estratégica.
A captura de líderes estratégicos, quando suportada pelo poder cibernético, pode produzir resultados decisivos com um emprego mínimo de força cinética. O ciberespaço, portanto, é um instrumento central do poder militar e estatal no século XXI.

