O ESPAÇO CIBERNÉTICO DE INTERESSE
A dinâmica do ciberespaço, constituída pela fluidez dos dados que não se limitam a fronteiras geográficas e impõe desafios à aplicação da autoridade e independência do Estado, promove a necessidade do entendimento sobre um conceito pouco explorado: o espaço cibernético de interesse.


Seguindo a ótica dos estudos militares, o espaço de interesse é representado por áreas adjacentes, nas quais os fatores e acontecimentos que nela se produzam possam repercutir no resultado ou afetar as ações atuais e as futuras planejadas. Extrapolando essa abordagem, o espaço cibernético de interesse é aquele que, embora não esteja integralmente dentro da jurisdição ou de território físico do país, é estratégico para os seus interesses nacionais, de segurança, econômicos ou tecnológicos, como: redes, plataformas, dados, infraestrutura ou atores em que o Estado tem interesse direto ou indireto.
O ente estatal pode, portanto, considerar como seu espaço cibernético de interesse as plataformas globais de dados, redes de comunicação internacionais ou cadeias de fornecimento tecnológicas que, se comprometidas, afetam sua soberania ou segurança. Ele deve mapear os fatores externos que podem interferir em sua soberania cibernética, particularmente os que promovem perda de autonomia.
Nota-se que o espaço cibernético de interesse é mais abstrato, virtual e difuso: não existindo, necessariamente, uma delimitação geográfica ou uma infraestrutura que esteja sob controle direto do ente estatal considerado. Torna-se, praticamente, inviável que um Estado tenha controle sobre todos os atores integrantes de seu espaço cibernético de interesse, na medida em que tende a ser global ou transfronteiriço. Nesta conjuntura, ele deve adotar uma estratégia de abordagem que combine:
- Forte controle do ciberespaço sob a ótica de sua soberania cibernética (infraestrutura, leis, capacidade de resposta, etc);
- Identificação precisa dos interesses estratégicos externos (fluxos, plataformas e dados são essenciais);
- Efetiva participação em alianças, na regulação internacional e governança cibernética a nível global para salvaguardar seus interesses; e
- Buscar mapear, com elevado grau de precisão, os atores inseridos em seu ecossistema cibernético.
O correto entendimento do espaço cibernético de interesse é um fator crítico de sucesso para a construção da consciência situacional estatal. Esse conhecimento será somado aos vinculados ao conceito de ciberespaço adotado pelo Estado, produzindo maior solidez na aplicação da sua capacidade de autonomia e independência.
Fonte: Livro Soberania Cibernética, "Estado, Poder e Governança na Era Informacional.

