O FUTURO DO ESPAÇO CIBERNÉTICO CONDICIONADO À EXPLORAÇÃO EM ÁGUAS PROFUNDAS

Um cenário cada vez mais seletivo

white concrete building during daytime
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O espaço cibernético torna-se cada vez mais tangível quando se observa a sua camada física. Nela são identificados os elementos vinculados ao controle e à operação da base tecnológica que promove o suporte para o ciberespaço, sendo observadas as interações entre os atores estatais e entes privados (nacionais e internacionais). A regulação e a proteção das infraestruturas críticas são, em grande parte, responsabilidade dos países, que empregam suas habilidades tecnológicas e humanas para prover as suas seguranças.

Segundo Nye (2011): O espaço cibernético se difere dos outros, pois é o único que apresenta uma mistura de propriedades virtuais e físicas. A camada física se refere a infraestruturas que seguem leis econômicas, custos tradicionais e estão sob controle e jurisdição de Estados soberanos; já a camada virtual apresenta características que fogem do controle jurisdicional tradicional.

Um aspecto relevante no tocante à camada física do ciberespaço é a complexa cadeia logística necessária à fabricação das infraestruturas tecnológicas de suporte ao referido ambiente. Neste ponto, identifica-se uma corrida das potências globais para reconfigurar a geopolítica contemporânea na busca pelo controle e exploração de reservas de minerais críticos e fontes energéticas.

Essa postura reforça uma das principais características do espaço cibernético, materializada pelo elevado grau de dependência de insumos complexos e considerável consumo energético.

A primeira imagem referente ao ciberespaço formada na mente de qualquer pessoa é vinculada aos fluxos informacionais promovidos pela capacidade dos computadores em transmitir e processar dados. Contudo, não se pode relevar o fato de que o espaço cibernético, como criação do homem, depende da combinação de insumos complexos.

As reservas de minerais para a produção de chips, baterias e componentes de transmissão, assim como as fontes energéticas imprescindíveis para o funcionamento deste ecossistema, tornam-se o verdadeiro centro de gravidade. Para projetar poder no ciberespaço, é preciso controlar os insumos críticos que permitem esse funcionamento. Como Nye (2010) aponta, o poder no ciberespaço não se limita a capacidades virtuais, mas também depende do domínio da infraestrutura física que o sustenta.

Neste contexto, os minerais críticos delineiam uma nova geopolítica energética. O controle global sobre eles é extremamente concentrado em alguns países, principalmente na China, que lidera em mineração e, sobretudo, no processamento e refino, mais de 70% e, em muitos casos, até 100% de participação em diversos minerais essenciais. Outros países desempenham papéis cruciais na produção de minerais específicos, como a República Democrática do Congo (cobalto), a Indonésia (níquel), a Austrália (lítio) e o Brasil (nióbio).

Essa concentração geográfica gera fragilidades na cadeia global de abastecimento e impacta diretamente a segurança econômica e tecnológica, o que, por sua vez, afeta a soberania cibernética de diversos países.

Outro ponto relevante é que as tecnologias constituem um sistema global interconectado. Seus terminais estão ligados entre si por infraestruturas de rede (cabos terrestres e submarinos, antenas de redes móveis, fibra ótica, etc.). Isso possibilita a troca de informações que são armazenadas e processadas em Data Centers, que são o coração desse sistema. No entanto, cada componente não apenas consome energia para operar, mas também necessita de energia para ser fabricado.

Todo o trabalho de extração das matérias-primas, o processamento industrial e a posterior entrega aos consumidores demandam uma quantidade considerável de energia, que está longe de ser insignificante. O controle e a proteção das fontes energéticas são fundamentais para que os Estados mantenham sua presença ativa e segura no espaço cibernético (Kissinger; Schmidt; Huttenlocher, 2021, p. 203).

Elas podem ser vistas como insumos estratégicos do ciberespaço, uma vez que a falta leva à perda de funcionalidade das redes, o que resulta no enfraquecimento do Estado. Segundo Deibert (2013, p. 92): “O poder cibernético é indissociável da materialidade das infraestruturas, incluindo os fluxos energéticos que as alimentam”.

Qual será a alternativa para um cenário futuro, em que as concentrações de minerais estratégicos já sejam totalmente controladas ou suas capacidades de produção sejam reduzidas, sendo tal conjuntura associada a uma profunda crise energética e ao aumento da demanda tecnológica?

A resposta com certeza estará vinculada à concepção de um novo mapa geopolítico mineral e energético fundamentado na exploração e ocupação das águas profundas.

A exploração mineral e energética em ambientes oceânicos profundos (deep sea mining e energias offshore) vai se tornando progressivamente mais estratégica no contexto do ciberespaço global, ou seja, na infraestrutura digital e nas cadeias tecnológicas que sustentam a economia digital.

São esses materiais (cobre, níquel, cobalto, terras raras, etc.) que possibilitam a fabricação de componentes eletrônicos, baterias de lítio e sistemas de energia renovável, os quais alimentam servidores, Data Centers, redes de comunicação e dispositivos que se conectam à internet.

Fala-se em uma oportunidade econômica de até US$ 20 trilhões com a exploração de minérios do fundo do mar. Especialmente na Clarion-Clipperton Zone do Pacífico, rica em concentrações de minerais críticos e com uma extensão de cerca de 1 milhão de km2. Essa área se assemelha, em tamanho, a países como o Egito. Além dos minerais, as fontes de energia presentes em águas profundas, incluindo petróleo, gás natural e o potencial de energia eólica offshore, são essenciais para a manutenção das infraestruturas de comunicações e centros de dados conectados, minimizando dependências energéticas e assegurando a resiliência das redes cibernéticas.

No entanto, a exploração se depara com desafios e controvérsias significativas. A maior parte do fundo do mar ainda não é conhecida, tendo sido vista por humanos menos de 0,001% do que existe lá, o que torna os possíveis impactos ambientais ainda mais incertos.

A exploração de recursos minerais e energéticos em áreas oceânicas profundas é vital para fornecer insumos que sustentam o espaço cibernético, desde o hardware de rede até as baterias de backup. Contudo, sua realização deve ser pautada pelo respeito à soberania cibernética dos Estados, à sustentabilidade ambiental e por uma governança internacional que garanta que os avanços tecnológicos não coloquem em risco ecossistemas marinhos delicados ou a estabilidade socioeconômica do planeta.

Fonte: Livro Soberania Cibernética (Estado, Poder e Governança na Era Informacional)